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APERTEM O CINTO: O PILOTO SUMIU DE VERDADE

Em 9 de junho de 1990, o encarregado de manutenção da aeronave BAC-1011 da Britsh Airways equivocou-se no diâmetro dos parafusos ao substituir o para-brisas da cabine.

No dia seguinte, quando o vôo 5390 de Birmingham a Málaga se encontrava a 15 mil pés, a diferença de pressão fez o para-brisas saltar pelos ares, succionando o piloto que, semi-consciente, ficou enganchado sobre a cabine no exterior do avião.

As últimas palavras do comandante Tim Lancaster a bordo do One-Elevem de 43 toneladas com 81 passageiros a bordo e 6 tripulantes, não permitiam pressagiar um dos acidentes mais estranhos e rocambolescos da história da aviação civil - "... é com prazer que anuncio que o clima é ensolarado e seco em Málaga e estaremos em nosso destino em aproximadamente 120 minutos..."


Poucos minutos depois, quando o auxiliar de vôo Nigel Ogden se dispunha a servir um chá aos pilotos, o para-brisas esquerdo da cabine arrebentou e imediatamente a atmosfera interior ficou congelada com uma espessa neblina branca que impedia a visão.

Quando a nuvem dissipou, Nigel Ogden observou que o comandante já não se encontrava em seu assento, e só viu seus sapatos presos na janela. O corpo de Tim permanecia pressionado contra o exterior da cabine pela pressão das rajadas de vento resultante da velocidade do avião. Ao ser expulso, Tim empurrou o manche para baixo e desligou o piloto automático provocando o descontrole do avião. A reação imediata de Nigel foi segurar os pés do comandante e não abandonou esta posição até o fim do incidente.


Enquanto isso o co-piloto, Alistair Atcheson, tentava devolver estabilidade ao avião. O risco de colisão com outro avião era alto, já que se encontravam num dos espaços aéreos com mais tráfego no mundo: Heathrow. Disse o "May-Day" com dificuldades pois era impossível escutar o rádio com um vento de mais de 500 quilômetros por hora lhe açoitando a cara. O avião então perdia altura a 30 metros por segundo. Um turbilhão de objetos voavam para o funil de pressão onde estava o piloto enganchado. Uma garrafa de oxigênio que estava presa na parede passou como um aríete a poucos centímetros da cabeça do auxiliar Nigel. A cabine converteu-se num redemoinho de papéis e cartas de navegação que acabaram enfileirando para o orifício de saída.

Outro auxiliar, John Heward, preparou os passageiros para um pouso de emergência e rapidamente se dirigiu à cabine para ajudar. Nigel sentiu que o vento estava prestes a levá-lo para o lado do comandante, ou seja, também para fora do avião e começou a gritar. John foi ao seu auxílio agarrando sua cintura com um braço e com o outro o assento do auxiliar.

O co-piloto baixou a aeronave mais de 9 mil pés em 95 segundos para buscar oxigênio aos passageiros. Ali, reduziu a velocidade a 300 quilômetros por hora e equilibrou o avião. O problema foi que a pressão sobre o corpo do comandante diminuiu e seu corpo começou a deslizar perigosamente para a lado exterior da cabine até que seu rosto apareceu na janela lateral: "Tudo o que recordo é como o Tim agitava os braços... parecia que mediam mais de um metro... parecia um boneco de vento, nunca esquecerei. Seus olhos abertos esbugalhados. O rosto colado contra a janela lateral sem pestanejar me fizeram pensar que ele já estava morto", diz Nigel Ogden.

Ainda que todos intuíam que o comandante não tinha sobrevivido, não pensaram na possibilidade de soltá-lo, simplesmente pelo perigo que isso supunha. Pela posição na qual se encontrava e a velocidade acrescentada, o corpo de Tim podia introduzir-se num dos motores traseiros. Os braços de Nigel e John estavam meio congelados e começavam a fraquejar. Simon Roger, outro auxiliar de vôo que estava na cabine de passageiros, teve que ir completar a corrente para segurar o comandante. Três homens, um atrás do outro, lutavam para evitar o deslizamento do pesado corpo de Tim Lancaster contra o vazio. O co-piloto conseguiu então estabelecer comunicação por rádio e aproximou o avião do aeroporto de Southampton. Tudo isso de cor, pois todos os manuais e cartas de navegação tinham voado para fora. Pediu ao controle uma pista de 2.500 metros já que estava preocupado pela elevado carga de combustível. Disseram-lhe que somente a de 1.800 metros estava disponível.


Sob um silêncio sepulcral o avião pousou sem dificuldades no aeroporto de Southampton às 7:55 da manhã de 20 de junho de 1990. Os passageiros desembarcaram comovidos, mas ilesos e o comandante foi levado ao hospital da cidade com uma fratura de braço, outra no pulso, hematomas, hipotermia e princípios de congelamento das extremidades.

Em 1992, a investigação sobre o acidente foi concluída e estabeleceu que a pressão trabalhista à que estava submetido o mecânico encarregado da substituição do para-brisas fez com que não procedesse de forma correta na escolha dos parafusos. Os que foram colocados tinham diâmetro ligeiramente menor.

Menos de 6 meses depois, após recuperar-se das fraturas, o comandante Tim Lancaster já estava voando novamente. O co-piloto Alistair Atcheson (esse é o cara) foi galardoado com a cobiçada medalha ao mérito aéreo e seus colegas receberam inumeráveis homenagens e prêmios.

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